Biologia + Ciências Naturais

A mais completa ave fóssil do Cretáceo do Brasil

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Fósseis de aves são bastante raros, principalmente de aves com penas preservadas. As penas são frágeis e se perdem pela tafonomia ou são destruídas de algum modo na fossildiagênese. Como resultado disto, pouco se sabe sobre como se deu a evolução das penas e plumagens. Como raras exceções, nos sedimentos finos da China e da Mongólia foram encontrados alguns espécimes com plumagem preservada.

Duas coisas:
Fossildiagênese é o processo de formação de fósseis. Basicamente é alguma parte do corpo, ou o corpo inteiro, que é preservada ou como molde ou como uma réplica na rocha.
Tafonomia são processos que vão da morte até a fossildiagênese e inclui coisas como apodrecimento, carniceiros, ladrões de cova e etc. Enquanto a fossildiagênese explica como as coisas se preservam a tafonomia explica porque somente algumas coisas são preservadas.

Outros lugares com alto potencial de preservação existem fora da China. Por exemplo, o Archeopteryx – debatido até hoje por ser um possível ancestral das primeiras aves – foi encontrado na Alemanha e ele, por acaso, é um exemplo de como as informações sobre as penas são importantes. Boa parte do auê em torno do Archeopteryx se deu justamente por ele ter sua plumagem parcialmente preservada.

O que lhes trago aqui hoje é algo muito especial. É um pequeno esqueleto quase completo de uma ave do tamanho de um beija-flor. Detalhe, material descoberto na região da Bacia do Araripe, Brasil, com penas preservadas. Notem que este é o primeiro caso do tipo no Cretáceo do Brasil e este é considerado o espécime mais completo de Gonduana.

Gonduana? Explico já já.

A região do Crato é uma velha conhecida do paleontólogos do Brasil. Além de fornecer fósseis excelentes para pesquisa e ela é uma área relativamente rica em materiais onde são encontrados fósseis de plantas, animais terrestre e aquáticos do Cretáceo. Isso é no tempo dos dinossauros. E foi durante o Cretáceo também que Gonduana, então um dos últimos supercontinentes, começou a se fragmentar no que mais tarde daria origem à América do Sul, África, Índia e Madagascar.

Pronto. Durante a maior parte do Mesozoico, todos os continentes atuais existiam, mas estavam colados uns nos outros em um supercontinente chamado Pangeia. Durante o Jurássico essa estrutura começou a se partir e dividiu-se em dois supercontinentes: Laurásia continha todos os continentes do norte atuais (Europa, Asia e América do Norte) e Gonduana todos as massas do hemisfério sul (América do Sul, África, Oceania, Índia e Antártica). Mais tarde os dois supercontinentes também se desmancharam formando o mundo como ele é hoje: Eurásia, África, Antártica, Oceania e Américas.

O material encontrado é do grupo Enantiornithes, um grupo semelhante ao dos Confuciusornis (ajudou? não, né?). Ambos são aves extintas do Cretáceo. É impossível saber a espécie com certeza e criar uma espécie nova seria temerário, então ficaremos na dúvida com essa.

Olhem só que pequeno. A barrinha tem 5 mm. Notem também como as penas da cauda são maiores que o bicho inteiro. Olhando com calma à direita, é possível observar detalhes das penas em uma das asas, que está dobrada para cima.
Olhem só como é pequeno. A barrinha tem 5 mm. Notem também como as penas da cauda são maiores que o bicho inteiro. Olhando com calma à direita, é possível observar detalhes das penas em uma das asas, que está dobrada para cima.

As penas podem ser vistas nas fotos do artigo. São essas marquinhas em torno do corpo da ave. É possível ver até mesmo detalhes como filamentos delas e tem mais. Em algumas penas existem pequenas concentrações de grãos ao longo delas. Suspeita-se que isso sejam vestígios da pigmentação original, então seria possível estimar a colocação e alguns padrões da penas quando a ave ainda era viva.

O Prof. Ismar da UFRJ fez um pequeno vídeo de divulgação para o lançamento deste trabalho à impressa.

Outra coisa curiosa deste animal são as penas da cauda. Note que elas são anormalmente alongadas. De fato, elas eram de pouca utilidade para voo, talvez até atrapalhassem. Elas serviam mesmo era para chamar a atenção, de modo parecido com as penas do pavão que servem para ameaçar os rivais e paquerar as pavoas de plantão. Essa é uma característica já conhecida do grupo do Confuciusornis e é razoável supor que o mesmo acontecia com Eunantiornithes. Espécimes com este tipo de plumagem já foram encontrados, mas o do Brasil se ressalta pela ótima preservação que permitiu aos pesquisadores esclarecer alguns detalhes sobre a morfologia delas que causava alguma confusão com as diferentes interpretações que recebiam.

Por fim, o tamanho diminuto sugere que se trata de um animal muito jovem, porém, as penas escandalosas da cauda dizem o contrario. Em aves atuais, (falo do pavão, mais uma vez) este tipo de plumagem surge quando o animal está mais velho e na idade de se reproduzir. Mas no caso destes grupos fósseis isso parecia acontecer muito antes pois já foram relatados casos parecidos entre eles.

Referência

Ismar de Souza Carvalho, Fernando E. Novas, Federico L. Agnolín, Marcelo P. Isasi, Francisco I. Freitas, & José A. Andrade (2015). A Mesozoic bird from Gondwana preserving feathers Nature Communications : 10.1038/ncomms8141

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