Biologia + Ciências Naturais

O caso das ostras mordidas

ResearchBlogging.orgÉ possível uma comunidade permanecer estável por longuíssimos períodos de tempo? Os dados que tempos hoje são gerados por monitoramentos ambientais que para os termos de ‘longo prazo’ que estou colocando aqui são muito recentes para dar noção de alguma coisa. Neste artigo aqui temos o exemplo de uma comunidade bem documentada em um longo intervalo do registro fóssil, são valvas de bivalves e alguns outros organismos que os quais eles conviveram.

Neste trabalho os autores coletaram amostras de uma biofacie bem característica da Fauna de Hamilton que ocorre no Devoniano Médio do Estado de Nova York e observaram uma composição parecida de valvas, mas com variações no tamanho das populações de cada uma das espécies estudadas. O que é interessante aqui é a presença de marcas de algumas conchas, estas são evidências de regeneração das mesmas depois de ataques frustrados de durofagos e junto com as conchas perfuradas são o único registro destes organismos neste ambiente.

Biofácie é uma forma de caracterizar um corpo rochoso através de seu conteúdo fossilífero, assim a biofácie analisada era justamente o pacote de sedimento de silte (algo entre areia finíssima e argila) rico em valvas de um certo tipo e bem preservadas. Como ao longo de um afloramento esta mesma característica pode se repetir, então devem existir vários níveis fossilíferos com a mesma biofácie naquela região, o que permite uma amostragem grande como a feita pelos pesquisadores.

O que o resultados mostraram foi o seguinte: As mesmas espécies de bivalves co-existiram por mais 800.000 anos por ali, mas ao longo do tempo algumas populações foram mais abundantes que outras, mesmo assim foram mais ou menos estáveis em uma escala de tempo muito grande. Outra observação importante é que as marcas que indicam atividades dos durofagos permaneceram mantendo os mesmos padrões no mesmo intervalo de tempo, mostrando que os predadores mantiveram-se com o mesmo nível de atividade durante todo este tempo e eventualmente mudaram a espécie-alvo de suas ações de acordo com a abundância da época. Isto por si mostra que este ecossistema permaneceu estável ao longo deste intervalo de tempo, mantendo uma teia alimentar praticamente idêntica ao longo de 800.000 anos.

Observem as falhas nas costelas (essas linhas na concha têm esse nome). São indicativo de a concha foi fraturada naquele ponto e se regenerou depois.
Observem as falhas nas costelas (essas linhas na concha têm esse nome). São indicativo de a concha foi fraturada naquele ponto e se regenerou depois.

Os durofagos também tinham uma tendencia para atacar as valvas que fossem maiores na média da população; como os atuais durofagos costumam ser bem maiores que suas presas isto pode ser visto como evidência de que no Devoniano este padrão de comportamento já existia.

Curiosidade: as valvas são fósseis dos bivalvos, mas as marcas de predação nas conchas são icnofósseis dos predadores. Os icnofósseis são marcas deixadas por um organismo que indicam algo sobre seu comportamento o que faz das valvas um tipo de fóssil dois-em-um. Também é possível montar Icnofácies usando apenas os incnofósseis em vez dos fósseis normais (biofácies).

Por fim, os autores chegaram a conclusão de que a estabilidade do ecossistema é fruto de uma combinação de fatores como sobreposição de nichos dos bivalves – permitindo que a comunidade mantenha a mesma estrutura apesar de sua variação de composição populacional – e flexibilidade por parte dos predadores em mudar para uma nova e mais abundante espécie-alvo conforme a espécie de bivalve anterior entrava em declínio. Isto também descarta a possibilidade deste ser um ambiente em Travado Ecologicamente pois para tanto seria necessário que as relações predador-presa fossem profundamente enraizadas nas populações e a flexibilidade da teia alimentar mostra justamente o contrário disto. Este trabalho me pareceu interessante por ser uma combinação dos velhos métodos de ecologia (amostragem de 538 valvas!) com alguma coisa de tafonomia e icnologia. Um verdadeiro trabalho de reconstrução paleoecológica.

Referências

Nagel-Myers J, Dietl GP, Handley JC, & Brett CE (2013). Abundance is not enough: the need for multiple lines of evidence in testing for ecological stability in the fossil record. PloS one, 8 (5) PMID: 23690981

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