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Guia de Pesquisa de Artigos Científicos

Introdução

O conhecimento científico é resultado de décadas de pesquisa, sistematização e constante revisão. Este conhecimento fica organizado na forma de artigos, livros e outras referências que são comumente conhecidas como “A Literatura”. As diferentes formas de organização da literatura científica exigem metodologias distintas de pesquisa, elaboração e organização. Veremos aqui as principais características d’A Literatura e como usá-la a nosso favor.

Sobre as revistas

A fonte mais tradicional de conhecimento são os livros e as enciclopédias. Os livros podem ser de um único autor, ou ter vários autores e, em matérias mais complexas, é comum que cada capítulo tenha um conjunto de autores próprios. As enciclopédias são consideradas fontes terciárias de informação, enquanto que alguns livros são considerados fontes secundárias.

Fontes de Informação:

  • Fonte Primárias: artigos, projetos e patentes onde o conhecimento foi publicado pela primeira vez. Geralmente são escritos em linguagem técnica e não são acessíveis ao grande público.
  • Fontes Secundárias: são artigos de revisão, livros compilando artigos e grandes relatórios de projetos. São publicados para prestações de contas ou são usados como referências por estudantes para seus próprios trabalhos.
  • Fontes Terciárias: são livros ou enciclopédias onde o conhecimento científico fica amplamente acessível, geralmente possuem uma linguagem mais compreensível ao grande público.

Geralmente as personagens mais comuns da literatura científica são as revistas (em inglês são conhecidas como Journals). Elas são publicações dedicadas a divulgar o trabalho de pesquisadores. Assim como jornalistas buscam mídias prestigiadas para veicular suas matérias, pesquisadores buscam revistas com boa reputação para divulgar seu trabalho. As revistas ganham reputação com o tempo, algumas mais jovens são conhecidas por serem criteriosas ou por estarem associadas a pesquisadores de renome e etc…

Leitura Recomendada: Como é calculado o Fator de Impacto das publicações?

Uma das principais características das revistas é a revisão por pares (p2p ou peer-review). Este processo é uma forma de garantir a qualidade do que é publicado nas revistas, consiste de convidar outros pesquisadores (referees) para avaliar os trabalhos que são enviados para as revistas e assim tornar criteriosa a seleção de novos materiais.

Sobre os artigos

Os artigos consistem de textos elaborados por pesquisadores tanto para divulgar sua pesquisa original quanto para revisar o estado de arte de uma certa área do conhecimento mas a maioria dos artigos se dedica a divulgar resultados de experimentos.

Existem muitos tipos de artigos, o estilo de escrita pode variar de acordo com a área do conhecimento e o formato também. É comum os artigos terem a seguinte estrutura:

  • Título: geralmente é grande e descreve o conteúdo do artigo.
  • Nomes dos autores e suas instituições de origem.
  • Abstract: um resumo do artigo, normalmente é escrito em inglês.
  • Introdução: uma breve discussão sobre o tema do artigo.
  • Materiais e Métodos ou Metodologia: descrição sobre como o trabalho foi feito.
  • Resultados e Discussão: em alguns artigos são separados, geralmente é a maior parte do artigo.
  • Conclusão: em artigos, costuma ser uma pouco mais extensa que uma conclusão de monografia.
  • Referências: lista de materiais consultados e citados no texto.

Além dos artigos que divulgam pesquisas novas, existem artigos de revisão. Estes são muito úteis para quem está começando a trabalhar em uma área pois trazem um resumo da literatura sobre o tema que tratam. Alguns trabalham com intensiva discussão sobre os avanços daquela área enquanto outros se resumem a descrever os principais fatos. Poucas revistas aceitam trabalhos de revisão, enquanto outras são dedicadas exclusivamente a eles.

Movimento Acesso Livre

Os primeiros periódicos eram impressos e acessíveis somente por universidades e seus assinantes. Com o surgimento da internet e da distribuição digital começou a surgir uma pressão para que o conteúdo dos artigos fosse livremente acessível para todos. Isto ficou conhecido como Movimento Acesso Livre (em inglês OpenAccess). Atualmente algumas revistas tornaram seu conteúdo livremente acessível na internet, outras liberam apenas artigos de uma certa idade enquanto outras surgiram especificamente para serem revistas de livre acesso.

Exemplos:

  • PLOS – Biblioteca Pública de Ciências
  • PNAS – Registros da Academia Nacional Americana de Ciências

Geralmente as revistas de livre acesso podem ser lidas por qualquer um. Embora existam discussões sobre como estas publicações se mantém, isso tem nenhuma influência sobre sua qualidade. De fato, revistas prestigiadas, como a PNAS, são de livre acesso. Quanto as revisas de acesso pago, é necessário um cadastro e uma taxa para acessar. As editoras oferecem opções como pagamento por apenas um artigo, pagamento por toda a revistas, anuidades e etc… Felizmente, algumas oferecem acesso institucional o que permite que pesquisadores de instituições cadastradas tenham acesso aos artigos livremente em suas redes. No caso das universidades brasileiras, o acesso é feito via CAPES, basta acessar o site da revista de um computador dentro de uma universidade associada para ter acesso à revista.

Pesquisando

Pesquisar a literatura científica é relativamente fácil pois há um esforço para tornar a informação publicamente acessível. Difícil mesmo é encontrar o que se procura. É necessário ter um conhecimento mesmo que superficial do tema pesquisado para a escolha correta das palavras-chave e para filtrar o conteúdo relevante.

A maioria dos artigos e suas revistas estão indexados em bancos de dados. Para buscá-los basta fazer uma pesquisa em alguns destes índices. Outros materiais interessantes como resumos de congressos ou artigos publicados muito antes da internet surgir ou em revistas que não existem mais são mais difíceis de conseguir. Os resumos dos congressos mais antigos eram publicados em uma compilação que era distribuída aos participantes (geralmente chamada de Anais que é o mesmo que Anuário). Enquanto que artigos mais antigos podem se encontrados em bibliotecas de universidades, quanto maior e mais antiga a biblioteca, maior a chance de ter um artigo raro. Alguns professores mantém bibliotecas particulares para materiais mais incomuns.

Direto na fonte com os editores

Uma das primeiras opções é pesquisar diretamente nos sites das publicações ou editoras das mesmas. Nem todas são de livre acesso então no máximo teremos acesso aos abstracts. Essas pesquisas são interessantes para ter uma pesquisa mais detalhadas. As vezes algumas revistas podem ter mais artigos interessantes sobre o mesmo tema, principalmente se forem especializadas. Para isto basta ir direto no site das revistas ou mesmo da editora da revista, algumas editoras oferecem serviços de pesquisa em todas as suas revistas ao mesmo tempo.

Índices

Alguns sites, assim como o Google, dedicam-se a indexar a informação dos artigos científicos para torná-los mais fáceis de pesquisar. Cada um tem o seu próprio paradigma e devido à complexidade da informação, frequentemente existem parâmetros demais para serem levados em consideração. As vantagens de pesquisar em um índice são:

  • Pesquisar em mais de uma revista ao mesmo tempo
  • Focar a pesquisa em um tema, região ou palavra-chave
  • Ter acesso a alguns serviços especiais de busca como acesso exclusivo a material
  • Geralmente os artigos nos índices são de boa qualidade

CAPES [periodicos.capes.gov.br]

O portal de periódicos da CAPES é uma ferramenta muito útil e um tanto complicada para alguns. Consiste de um metabuscador, um sistema que pesquisa em muitos índices diferentes ao mesmo tempo.

Existem 3 modalidades de busca no site da Capes:

  • Metabusca: permite buscar por palavras-chave escolhendo em quais índices pesquisar .
  • Periódico: permite buscar um periódico sobre o assunto que lhe interessa em vez de artigos individuais. É útil para quem está começando em uma área ou deseja procurar um local para publicar seu material.
  • Bases: permite procurar por índices de artigos, aqui você tem uma lista vasta de materiais que podem ser lidos. A maioria de acesso livre.

Como usar a Metabusca:

1. Escolha uma das áreas de busca:

  • Biológicas e Saúde
  • Exatas e da Terra
  • Sociais e Humanas

2. Diga uma das palavras-chave: geralmente é preciso ter alguma noção de palavra-chave para passar por aqui. Por exemplo, alguns autores podem referir-se a uma especie pelo seu nome popular, ou usar o nome científico abreviado. Por exemplo:

  • Nome comum (muito comum): Beija-flor
  • Nome científico: Eupetomena macroura; Hylocharis chrysura; Chlorostilbon lucidus… são muitas espécies, qual você está procurando?
  • Nome abreviado: E. macroura; H. chrysura; C. lucidus….

Na hora de usar as palavras-chave é bom ter imaginação para procurar sinônimos tanto em português quanto em inglês. Às vezes abreviações também são boas palavras-chave, mas frequentemente trazem materiais de outras áreas.

A opção de Busca Avançada é muito interessante. Além da simples pesquisa por palavras-chave, ela permite escolher a área do conhecimento (mais detalhada que a simples), subárea e quais bases de dados pesquisar. Isso é muito útil para restringir o escopo da pesquisa a uma base mais especializada ou a uma área mais evidente da pesquisa.

Como usar a Busca de Periódicos:

Esta busca serve para procurar por revistas e não por artigos. Uma de suas aplicações é ajudar pesquisadores a encontrar periódicos para publicar ou para acompanhar. É muito interessante acompanhar uma revista de referência na área quanto estamos começando. Existem três modalidades de busca de periódicos:

Busca Avançada: aqui é possível escolher a área do conhecimento e o fornecedor/editor da revista, além de palavras-chave do título. É um tanto ruim de filtragem e pode dar uma quantidade muito grande de resultados. Também é possível selecionar mais de um fornecedor/editor ou área do conhecimento.

Busca por Área: permite apenas escolher a área do conhecimento, mas com opções de subáreas. Nas opções de listagem é possível escolher quais as iniciais de nomes das revistas devem ser visualizadas. É interessante por permitir encontrar revistas em áreas bem específicas.

Busca de Referências: este aqui é bem interessante para quem está escrevendo. É uma busca de revista e artigo ultra específica que permite inserir até o título e página da revista para buscar. Seu objetivo é ajudar quem já está escrevendo o artigo a achar referências citadas por outros autores.

Como buscar nas Bases:

A busca de bases é uma forma de encontrar índices de referências. É bom dar uma passada aqui antes de escolher quais índices usar na Metabusca. Assim como a pesquisa de periódico, este aqui tem três modalidades que são bem parecidas com as anteriores:

  • Busca por título: permite usar uma palavra-chave para verificar se ela está indexada em alguma das bases.
  • Busca por área do conhecimento: apenas lista as bases com uma filtragem de área e subárea.
  • Busca Avançada: permite inserir, além das palavras-chave, alguns parâmetros como tipo de material indexado (pode ser artigo, patentes, livros, etc…), se é de acesso livre, nacional, área do conhecimento e etc…

SciElo [scielo.org]

É uma das bases mais conhecidas dos estudantes. Apesar de suas limitações é bastante popular pois tem artigos de acesso gratuito e é frequentemente a fonte que todo mundo acha quando tenta uma pesquisa no Google. O forte do SciElo e indexar revistas sul-americanas, por isso a maior parte de seu conteúdo é em espanhol ou português. O SciElo oferece os mesmos recursos do CAPES, só que em um formato extremamente simples e fácil de compreender. Basicamente o site de entrada da base oferece todas as duas modalidades e busca:

  • Artigos: é como a da CAPES. Aqui é possível escolher o país de origem do artigo (muito útil para levantar estado da arte nacional) e como a palavra-chave será tratada. Teste cada um dos métodos de pesquisa, podem dar resultados muito diferentes para cada tipo de palavra-chave.

Dica: o método “Proximidade Léxica” é o que trás mais resultados. Evite usar acentos nas palavras-chave, geralmente o SciElo fica confuso e dá resultado nenhum.

  • Periódicos: permite fazer uma busca por revistas em vez de artigos. As opções são as mesmas da CAPES: título, alfabético e área do conhecimento.

Google Acadêmico [scholar.google.com]

O portal da CAPES cobre a maior parte das nossas necessidades extraordinárias, mas no dia-a-dia é um tanto indigesto pesquisar por lá. Por isso o Google Acadêmico é tão interessante. Para quem não conhece, é um serviço do Google especializado em buscar conteúdo científico, tanto de acesso livre quanto restrito, de diversos fornecedores. Uma das vantagens do Google Acadêmico é a incrível facilidade de uso, outras são recursos incomuns que podem ser muito úteis em momentos desesperadores.

Usando o Google Acadêmico:

Sua interface é a mesma do Google normal, então basta jogar o que quiser que ele responde. Pode ser palavra-chave, nome de autor, título de artigo… Os resultados da busca são mostrados na tela da mesma forma que na pesquisa web, com algumas diferenças:

  • A maioria dos resultados está em PDF, que é o formato típico dos artigos. Geralmente o que não está em PDF não está disponível para download.
  • Os resultados são exibidos de forma padronizada e detalhada: título; autores; alguma coisa do texto.
  • Logo abaixo de cada resultado tem alguns links com opções sobre aquele material em especial:
  • Citado por: permite ver outros autores que usaram aquele artigo como referência, permite ter uma ideia de o quão relevante ele é.
  • Artigos Relacionados: faz uma nova busca com material semelhante, é uma forma de busca avançada automática.
  • Ver outras versões: às vezes, o Google acha o mesmo artigo em vários locais diferentes, talvez um deles seja de livre acesso, outros são apenas divulgações ou links para outras bases de dados.
  • Ver em HTML: ele tentará transformar o PDF ou qualquer outro formato de arquivo em um HTML para que você possa lê-lo.

Exemplo de resultado de busca no GA.

  • Antes do nome de alguns artigos tem um termo em chaves, ele tem um significado importante que pode te poupar algum tempo:
    • [citation]: são apenas citações, trabalhos que o Google indexou porque muita gente mencionou mas que ele próprio não achou na Web. É típico de livros e outros materiais que você não encontrará para baixar por aí…
    • [pdf,
      doc…]: é o formato do arquivo, se há um marcador como este no material, parabéns, significa que ele provavelmente poderá ser baixado como um arquivo. Os resultados que não tem isso geralmente são indicações de outras bases de dados.

Do lado direito, depois do nome do artigo também tem um link com um endereço da web resumido e uma marcação. É uma tentativa do Google de te levar direto para o arquivo do artigo. Isso é muito interessante pois alguns artigos não podem ser baixados nos seus sites de origem, mas podem ser baixados aqui. Então se estiver tendo dificuldades, tente este link. Ele ocorre mesmo em artigos que não tem marcador de formato de arquivo.

A busca avançada também oferece recursos como pesquisa por data, por periódico, por autor e etc… Por fim, alguns recursos que o Google Acadêmico oferece são:

  • Alerta por e-mail: permite receber um e-mail cada vez que um novo material é encontrado para a base. Infelizmente não é possível assinar resultados por RSS como na busca da Web.
  • Desde: dá para filtrar resultados pela data indicando desde que ano você quer resultados. Bom para ver as pesquisas recentes. Esta opção fica no topo da página de resultados, perto do campo de busca.
  • Incluir Citações: esta opção permite excluir as citações e forçar o Google a lista resultados que tenham pelo menos um resumo/abstract. Pode poupar muito tempo. Também fica no topo da página.

5 comentários sobre “Guia de Pesquisa de Artigos Científicos

  1. Boa noite, gostaria de parabenizá-lo pelo trabalho.Gostei muito do escrito sobre os artigos científicos,pois senti um pouco de dificuldade pra pesquisar e qual a melhor forma de encontrar o que realmente procuramos e me ajudou bastante essa informação.

    Att,

    Paula Danielle

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    1. Obrigado Paula. Escrevi este post justamente para ajudar uns amigos que tinham problemas com isso. Estou feliz que tenha sido útil pra você também ;)

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  2. tenho que levantar dados de décadas atras do estado do Pará, como faço para filtrar minha pesquisa por ano em bancos de dados científicos?

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    1. Depende muito da ferramenta. No Scielo é possível adicionar um campo com data de publicação e usar operadores para adicionar mais valores à lista: 1991 or 1992 or 1993 or 1994 or 1995 or 1996 or 1997 or 1998 or 1999.

      No capes é ainda mais fácil, dá para adicionar intervalos de dia e mês: http://periodicos.capes.gov.br/?option=com_pmetabusca&mn=88&smn=88&type=m&metalib=aHR0cDovL21scGx1cy5ob3N0ZWQuZXhsaWJyaXNncm91cC5jb20vcHJpbW9fbGlicmFyeS9saWJ3ZWIvYWN0aW9uL3NlYXJjaC5kbz8mdmlkPUNBUEVTJm1vZGU9QWR2YW5jZWQ=

      Se está procurando dados muito antigos ou muito específicos, talvez seja uma boa procurar dados não-publicados ou não indexados como bibliotecas de universidades (monografias não-publicadas) e anais de eventos especializados junto às sociedades que os organizaram.

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