Biologia + Ciências Naturais

Psicologia do Nazismo: Estudando Erich Fromm

Escrevi este texto durante a disciplina de Psicologia da Educação, somente eu escolhi esse tema por que achava interessante como o nazismo influenciou a história e sobre suas raízes. Também tenho um ponto de vista muito parecido com o Erich Fromm neste aspecto.

No capítulo VI de seu livro, intitulado Do medo à liberdade, Erich Fromm destaca as características psicológicas do movimento nazista que assolou a Europa e a Alemanha no período pós primeira guerra e durante a segunda guerra. Fromm faz uma análise psicológica cuidadosa dos povo alemão naquele período e dos principais líderes do movimento, sempre destacando fatores sócio-econômicos e culturais relevantes. O Autor considera as principais abordagens sobre o fenômeno nazista antes de iniciar as discussão e segue fazendo um estudo dos diversos fatores que interagem naquele contexto do pós-guerra e do Tratado de Versalhes citando freqüentemente a auto-biografia de Hitler como uma referência de sua personalidade. Erich Fromm foi um psicólogo alemão e autor de Análise do Homem e O Espírito de Liberdade. Sua obra é considerada polêmica e das mais influentes do século 20 e é conhecida por abordar os efeitos da sociedade e cultura sobre o indivíduo.

Erich Fromm
Erich Fromm

A Psicologia do Nazismo

O foco do texto é analisar os estado psicológico e traços marcantes da personalidade dos diversos grupos alemães durante o período e de seus líderes. Entretanto esta análise é feita sempre com a ajuda de uma breve explanação dos contextos sócio-econômicos, culturais, políticos e institucionais em que ocorrem.

Ele, Fromm, cita duas principais abordagens para a compreensão psicológica do nazismo. A primeira, ignora completamente a psicologia e considera o nazismo ( e o fascismo) como um fenômeno inteiramente político – causado pela subida ao poder por parte de um partido tirânico – ou de cunho econômico e cultural – devido às tendências sempre expansionistas do império alemão e de seus industriais. A segunda, considera o nazismo e o fascismo como fenômenos de cunho inteiramente psicológico ou psicopatológico, tendo Hitler e seus seguidores como mentalmente desequilibrados. Para Fromm, estas abordagens são imprecisas e parciais, segundo ele: “O nazismo é um problema psicológico, mas os próprios fatores psicológicos têm de ser interpretados como sendo moldados por fatores sócio-econômicos” (p. 175).

Fasces
A Fasces é a Lei do Porrete. Foi moda no Império Romano

São identificados dois grandes grupos no povo alemão: os que se submeteram ao nazismo sem com ele concordar, necessariamente; e os que se apegaram à ideologia do partido tornando-se militantes. Fromm deixa bem claro que esta divisão ignora aqueles que lutaram heroicamente contra o regime nazista. O primeiro grupo é formado principalmente pela classe operária que já havia sofrido duras perdas durante o período do pós-guerra e vira parte de suas conquistas trabalhistas serem minadas pela recém criada república alemã. O segundo grupo é formado principalmente pela classe média inferior, grupos católicos e pela burguesia liberal os quais, estavam em pleno declínio em relação à classe operária em ascensão enquanto perdiam suas referências tradicionais e seu poder econômico.

Agora analisaremos os principais fatores sócio-econômicos e culturais abordados por Fromm como sendo influentes no caráter social de cada classe. Enquanto a classe operária foi beneficiada pelo que Fromm chamou de revolução do capitalismo monopolista, a classe média inferior foi privada de boa parte deste benefício e sentiu sua posição social ameaçada durante a ascensão dos operários. Mesmo antes do Tratado de Versalhes, a classe média encontrava-se em declínio econômico porém o que realmente a abalou foi o colapso de várias instituições tradicionais da sociedade alemã como a monarquia. Durante este período (monarquia) o indivíduo vivia em um ambiente social e cultural estável que lhe dava um certo orgulho e sensação de unidade, mesmo o declínio no poder individual era compensado pelo poder das autoridades às quais se submetida. Esta condição mudou radicalmente com a queda dos Kaisers alemães durante o pós-guerra e com a implementação da república e das condições do Tratado de Versalhes.

Uma crise econômica abateu-se sobre a Alemanha depois de 1929 e com ela a inflação, a classe média viu seu poder de compra declinar rapidamente assim como suas economias e seu prestígio diante das classes inferiores e superiores a ela. A inflação e a crise minaram a autoridade do novo estado diante da classe média enquanto que a queda da antiga estrutura social e cultural ameaçava até mesmo a integridade da família alemã. A crise na moral e na autoridade dos chefes de família da Alemanha envolve diversos fatores e pode ser de uma complexidade impressionante. Entretanto, pode ser citada a decadência dos antigos símbolos de autoridade social como a monarquia e o Estado e a reação de cada geração diante da crise nacional. Enquanto o mais velhos pareciam atônitos com a velocidade e o curso dos acontecimentos, as gerações mais jovens apresentaram-se mais flexíveis às novas condições e menos dispostas a esperar que algo os salvasse.

Charlie Chaplin em o Grande Ditador
Hail mein Führer: Apesar da comédia, Chaplin foi essencial para alertar sobre o perigo da Alemanha Nazista.

A classe operária também sofreu perdas mas também obteve algumas vitórias. A crescente industrialização do período favoreceu esta classe social que cresceu em prestígio e em renda. Depois da Revolução de 1918 houve uma grande valorização desta classe e promessas sobre a futura implementação de um socialismo além do seu fortalecimento político ante as conquistas. Porém, no começo da década de 30, estas conquistas haviam sido obliteradas pelo novo regime e pela crescente força dos industriais.

Outro fator importante abordado é o Tratado de Versalhes que funciona como um divisor de águas na sociedade alemã. O povo alemão reagiu mal ao Tratado e o considerou injusto em sua maioria porém, os operários estavam bem menos rancorosos do que a classe média pois o Tratado representava a derrocada do antigo regime contra o qual lutaram durante sua revolução. Pode-se ver que o Tratado atingiu duramente a classe média inferior que associou a humilhação nacional e à inferioridade social.

Fromm cita o livro Minha Luta, que uma autobiografia de Hitler, escrita enquanto ele estava na cadeia. O futuro líder nazista cita a si mesmo como “joão-ninguém” repetidas vezes e se associa bastante com os anseios da classe média inferior e dos industriais. Hitler representava muito bem os interesses da classe média inferior em busca de poder e de prestígio perdido social e nacionalmente mas também, era um oportunista nato que serviria aos interesses dos industriais. Segundo Fromm: “O nazismo nunca teve quaisquer princípios políticos ou econômicos genuínos. É indispensável compreender que o princípio mesmo do nazismo é seu oportunismo radical” (p. 184).

Minha Luta
Mein Kampf, é o título no original em alemão

A personalidade de Hitler representa algumas características encontradas em seus seguidores como um desejo de se submeter a um poder superior – necessidade masoquista – e ao mesmo tempo, exercer um poder absoluto e tirânico sobre alguem considerado inferior – necessidade sádica. Fromm cita várias passagens de Minha Luta onde é possível identificar como Hitler defendia abertamente métodos de manipulação de opinião e como entrava em contradição com alguns de seus ideais. “Enquanto Hitler e sua burocracia fruem o poder sôbre as massas alemãs, estas mesmas são ensinadas a gozar o poder sôbre outras nações e a serem impelidas pela paixão de dominar o mundo” (p. 188), neste trecho, Fromm mostra como a satisfação sádica de dominar alguem mais fraco impele os membros do partido e também satisfaz os anseios da população através da submissão violenta de outras raças e nações.

O autor identificou algumas “racionalizações” que Hitler usava para justificar sua ideologia e sua sede de poder:

  • A dominação dos outros povos é necessária para a paza mundial e para os povos dominados
  • O desejo de poder é uma necessidade criada por forças superiores como Deus e as “leis eternas da Natureza”
  • Sua agressividade é apenas uma reação contra outros que desejam dominar a raça alemã

A primeira racionalização é identificada em alguns trechos de Minha Luta onde Hitler defende a tese de que a paz mundial somente será alcançada através da dominação do mundo por um raça e “cultura superior” que ponha ordem sobre os outros povos.

A segunda racionalização relaciona-se com a necessidade masoquista de submeter-se a um poder muito superior que geralmente é associado à Natureza, à História ou a Deus. Aqui, o autor cita um foco freqüente de polêmica: como Hitler distorceu princípios do Darwinismo para justificar seus atos afirmando que isto seria a penas o “instinto de conservar a espécie” o qual lhe dava o direito moral de agir sob a ótica das “leis naturais”. Embora se afirmasse um evolucionista, Hitler era totalmente contra a teoria da evolução na prática. Outra característica que aflora é o supostos socialismo. O partido nazista era, em sua língua mãe o “Partido Nacional Socialista”. O socialismo nazista significava preocupação com o bem da sociedade e nenhuma relação tinha com o socialismo Marxista que dominava a Rússia. Hitler defendia os interesses do capitalismo e da competição irrestrita.

Leninn discurssa para partidários...
Herr Hitler era muito esperto: Pegou o socialismo russo, tirou o comunismo e ficou com a Ditadura. Os Chineses aprendem rápido...

A ultima racionalização justifica seus atos como defesa contra ataques de outros. Fromm identificou vários trechos do livro de Hitler onde ela acusava outros povos dos objetivos que ele próprio defendia o que demonstra um certo nível de irracionalidade. Hitler acusou os franceses de tentarem sufocar a Alemanha e os Judeus de tentarem dominar os outros povos para seu bem, assim como os Arianos. A diferença seria a falta de um caráter ideológico nos Judeus e a superioridade natural da raça ariana.

Os anseios sadomasoquistas dos nazistas criam um desprezo em relação aos que consideram fracos, uma atração aos que são poderosos e um ódio imensurável contra aqueles que se apresentam inertes, nas palavras de Fromm: ”…o ‘apaziguamento’ era uma política que tendia, em uma personalidade como a de Hitler, a suscitar ódio e não amizade”.

Por fim, o autor conclui que a história recente da humanidade mostra como há uma procura contínua por liberdade e a uma forma de individualização. As características apresentadas pelo nazismo são típicas de uma personalidade sadomasoquista e levam a uma sociedade onde todos tem alguem abaixo de si e e acima de si e mesmo o líder está submetido a uma “força superior”. Embora o nazismo seja uma ideologia com a capacidade de apresentar uma realidade suportável, mesmo que insustentável pois ocorre em condições psicológicas aterradoras e que são preservadas, ela causa o aprofundamento dos problemas que a originam com o tempo.

Conclusões

Erich Fromm abordou muito bem a complexidade do fenômeno nazista. Ele mostra neste capítulo em especial uma visão ampla dos acontecimentos que antecederam e que influenciaram a ascensão de Hitler ao poder relacionando brilhantemente os fatores psicológicos aos fatores sociais, econômicos, culturais e históricos. Este capítulo também revela-se como uma síntese da obra de Fromm que é conhecida por mostrar a importância do meio sobre a psicologia do indivíduo.

Fromm também cita várias passagens da autobiografia de Hitler onde este descreve métodos para manipulação das massas, da opinião e racionalizações. Fromm poderia ter aprofundado-se mais nestes métodos que foram tão amplamente explorados pelos nazistas dando explanações sobre seu funcionamento. Estas metodologias de manipulação em massa não são um exclusividade nazista, porém, permitiria explorar melhor o conteúdo. Talvez o autor tenha explorado este tema em outros capítulos de seu livro.

Referências

Fromm, Erich. Psicologia do Nazismo. In:___. O medo à Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. Cap. 6, p. 174-199.

Biografia de Erich Fromm. Em: < http://www.netsaber.com.br/biografias/ver_biografia_c_380.html >. Acesso em 12 de fevereiro de 2008.

Nazis-Occult Conspiracy. Dirigido e produzido por Tracy Atkinson e Joan Barron, produzido para o Discovery Channel.

4 comentários sobre “Psicologia do Nazismo: Estudando Erich Fromm

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