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Propriedades antibióticas das Argilas

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Argilas já são conhecidas por propriedades medicinais; alguns animais comem argilas para prevenir e tratar intoxicações e humanos aprenderam a fazer o mesmo. Tratamentos médicos tradicionais e alternativos utilizam argilas tanto para fins estéticos quanto por suas propriedades antibacterianas. No artigo a seguir, Keith et alli mostram alguns dos mecanismos pelos quais as argilas causam a morte de bactérias.

 

2 fig
As Maitacas-de-cabeça-azul comem argilas para evitar a intoxicação pelas sementes das quais se alimentam.

Desde a penicilina, bactérias e outros patógenos avançaram muito e tornaram-se resistentes aos antibióticos comerciais. A maioria dos antibióticos foi criada com base em fontes biológicas, eles seriam defesas naturais de plantas e fungos contra bactérias. Estes agentes atacam mecanismos intracelulares como a replicação do DNA e a síntese da parede celular, por exemplo. Porém, nosso uso indiscriminado de antibióticos em escala global levou a uma crise dos antibióticos e agora precisamos de tecnologia de antibióticos alternativos. É aqui que as argilas tornam-se uma opção.

Tecnicamente, argilas são todo material composto de partículas menores que 2 µm; o que é bem menor que uma partícula de areia de praia e pode ser feita de qualquer mineral. Porém, são poucos minerais que resistem ao intemperismo até ficar deste tamanho, por isso argilas geralmente são composta de alguns minerais específicos como Esmectita, Ilita e Caolita. Outra curiosidade das argilas é que suas partículas geralmente são achatadas em vez de arredondadas como nas areias, isso faz com que elas tenham uma grande superfície de contato para reações químicas.

Bactérias são acostumadas a viver em ambientes com argilas, então, por que as argilas de repente se tornam bactericidas? Isso acontece porque quando os minerais das argilas são hidratados eles oxidam e liberam íons metálicos na solução. Os íons de Ferro e Alumínio foram o foco do artigo pois eles se mostram tóxicos para as bactérias.

O ferro é importante para muitos sistemas biológicos como respiração – lembremos que o sangue é vermelho devido à presença de ferro na hemoglobina – e funções de enzimas, porém, altas concentrações dele são tóxicas. O Alumínio tem pouca ou nenhuma função biológica conhecida, mas concentrações altas de íons dele causam danos às membranas celulares.

Diferentes argilas liberam diferentes tipos de íons – isso depende dos minerais constituintes – mas geralmente argilas de um mesmo depósito sedimentar serão razoavelmente iguais. No caso as Argilas Azuis do Óregon, conhecidas por suas aplicações medicinais, liberam Fe²⁺, Fe³⁺, Al³⁺ e Ca²⁺ através da oxidação da pirita, troca de íons entre Ilita e Esmectita e dissolução de feldspatos.

As partículas de argila criam uma situação onde os íons liberados por ela também reduzem o PH do meio de cultura, aumentando os efeitos tóxicos dos metais. O ataque à bactéria ocorre em diversas frentes:

 

1 fig
Vejam como os íons metálicos e os radicais de OH são gerados pelas argilas (A) e como eles atacam os sistemas internos da célula bacteriana (B).
  • Fe²⁺ e Al³⁺ associam-se a partes da membrana fazendo com que a proteínas se corrompam, favorecendo a oxidação.
  • O peróxido de hidrogênio gerado pelas argilas atravessa a parede e membrana celular e reage com o Ferro já dentro da célula. O OH livre ataca tanto as proteínas quando o DNA o que deixa múltiplos sistemas sem funcionar.

Para piorar a situação, enquanto a argila estiver presente no meio, ela continua liberando íons e radicais de peróxido conforme estes invadem a bactéria. Isso cria um efeito lento de ataque, como em um antibiótico de liberação lenta, mas atacando múltiplos sistemas simultaneamente o que deixa a bactéria sem muitas opções de reagir.

Bem, as argilas ainda estão longe de serem vendidas em farmácia como antibióticos viáveis, mas a compreensão de como elas atacam as bactérias já nos dão uma boa ideia de que possibilidades explorar para os novos antibióticos.

Referências

  • Death by a thousand cuts
  • Morrison, K., Misra, R., & Williams, L. (2016). Unearthing the Antibacterial Mechanism of Medicinal Clay: A Geochemical Approach to Combating Antibiotic Resistance Scientific Reports, 6 DOI: 10.1038/srep19043

 

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Modelagem numérica de dutos subterrâneos: o básico

Eu tenho estudado uma coisa ou outra sobre modelagem pois quero trabalhar com isso no meu doutorado. Por hora, tenho uma vaga ideia do que seja. Hoje trago um exemplo disto, um artigo sobre modelagem da deformação de dutos subterrâneos.

Quem trabalha na área de óleo e gás sabe que dutos são a forma mais comum de transporte destes materiais em terra. Os dutos subterrâneos estão fora do alcance dos elementos, exceto um, terra. A subsidência é um fenômeno geológico comum, causado pela movimentação de camadas da litosfera ou do solo e que pode romper os dutos. Subsidência também pode ser causada por estupidez humana, como má engenharia ou mal uso de recursos do solo como água subterrânea. Zhang et al. criaram um modelo bastante simples de como a subsidência afeta tubulações subterrâneas.

subsidence area
Sinalização nos EUA indicando uma área afetada pela subsidência induzida pela exploração de água subterrânea.

Por essência, um modelo é uma simplificação da realidade. Ele transforma um fenômeno complexo em algo mais simples de compreender, explicar e prever. Um belo exemplo disto é a cinemática do ensino médio. Nela uma das primeiras coisas que aprendemos é sobre a velocidade média de um objeto, que é um modelo bem simples de como prever como qualquer coisa se move.

Para criar um modelo, pesquisadores devem definir as variáveis e as premissas para ele. Quanto mais variáveis mais preciso, porém mais complicado se torna o modelo. Quanto melhores as premissas, mais próximo da realidade ele se torna. Premissas ruins tornam o modelo pouco útil. No modelo da velocidade média nos temos apenas duas variáveis: tempo e espaço. No artigo, os autores descrevem profundidade, composição do solo, diâmetro da tubulações, velocidade de subsidência, fricção do solo e pressão interna da tubulação.

Quanto às premissas, no modelo da velocidade média são aquelas coisas tipo “assuma um objeto de massa desprezível”, “desconsidere a resistência do ar”, “assuma um corpo ideal” e etc… No modelo das tubulações os autores usaram algumas práticas de engenharia e padrões industriais para criar suas premissas. Por exemplo, optaram por modelar em um cubo de 60m x 15m x 10m por uma questão de praticidade.

model basic assumptions
Os fundamentos do modelo: tamanho da tubulação, área modelada, posicionamento e etc…

Feitas as simulações computacionais (essa eu ficarei devendo ;) temos os resultados do modelo que nos mostram o quanto cada variável afeta o conjunto como um todo e como elas interagem. Vejamos:

  • Profundidade: quanto mais profundo menor a deformação. Isso é devido à pressão do solo em torno da tubulação, porém, isso aumenta o quanto a tubulação se curva.
  • Subsidência: a deformação é maior na área de subsidência no que na área adjacente. Isso parece óbvio, mas tem implicações importantes. As deformidades são diferentes em cada uma das áreas.
  • Diâmetro/espessura do cano: quanto maior a espessura da tubulação mais resistente ela se torna, mas somente se a espessura das paredes acompanhar.
  • Composição do solo: o que pesa mais areia ou lama? Os sedimentos finos como lamas e siltes acumulam mais água e são mais compactos, causando uma deformação maior.
  • Pressão interna: para quem achou que a pressão dentro do tubo o tornaria mais resistente (eu), a resposta é outra. A pressão interna tem pouca ou nenhuma influência na deformação.
soil effect
Este é um dos meus gráficos favoritos no artigo. Ele é bem simples e mostra como a composição do solo afeta a deformação das tubulações.

Com isso em mente já é possível fazer um planejamento melhor de onde colocar seus oleodutos.

Referência:
Zhang J, Liang Z, Han CJ (2015) Numerical
Modeling of Mechanical Behavior for Buried Steel
Pipelines Crossing Subsidence Strata. PLoS ONE
10(6): e0130459. doi:10.1371/journal.pone.0130459

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A mais completa ave fóssil do Cretáceo do Brasil

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Fósseis de aves são bastante raros, principalmente de aves com penas preservadas. As penas são frágeis e se perdem pela tafonomia ou são destruídas de algum modo na fossildiagênese. Como resultado disto, pouco se sabe sobre como se deu a evolução das penas e plumagens. Como raras exceções, nos sedimentos finos da China e da Mongólia foram encontrados alguns espécimes com plumagem preservada.

Duas coisas:
Fossildiagênese é o processo de formação de fósseis. Basicamente é alguma parte do corpo, ou o corpo inteiro, que é preservada ou como molde ou como uma réplica na rocha.
Tafonomia são processos que vão da morte até a fossildiagênese e inclui coisas como apodrecimento, carniceiros, ladrões de cova e etc. Enquanto a fossildiagênese explica como as coisas se preservam a tafonomia explica porque somente algumas coisas são preservadas.

Outros lugares com alto potencial de preservação existem fora da China. Por exemplo, o Archeopteryx – debatido até hoje por ser um possível ancestral das primeiras aves – foi encontrado na Alemanha e ele, por acaso, é um exemplo de como as informações sobre as penas são importantes. Boa parte do auê em torno do Archeopteryx se deu justamente por ele ter sua plumagem parcialmente preservada.

O que lhes trago aqui hoje é algo muito especial. É um pequeno esqueleto quase completo de uma ave do tamanho de um beija-flor. Detalhe, material descoberto na região da Bacia do Araripe, Brasil, com penas preservadas. Notem que este é o primeiro caso do tipo no Cretáceo do Brasil e este é considerado o espécime mais completo de Gonduana.

Gonduana? Explico já já.

A região do Crato é uma velha conhecida do paleontólogos do Brasil. Além de fornecer fósseis excelentes para pesquisa e ela é uma área relativamente rica em materiais onde são encontrados fósseis de plantas, animais terrestre e aquáticos do Cretáceo. Isso é no tempo dos dinossauros. E foi durante o Cretáceo também que Gonduana, então um dos últimos supercontinentes, começou a se fragmentar no que mais tarde daria origem à América do Sul, África, Índia e Madagascar.

Pronto. Durante a maior parte do Mesozoico, todos os continentes atuais existiam, mas estavam colados uns nos outros em um supercontinente chamado Pangeia. Durante o Jurássico essa estrutura começou a se partir e dividiu-se em dois supercontinentes: Laurásia continha todos os continentes do norte atuais (Europa, Asia e América do Norte) e Gonduana todos as massas do hemisfério sul (América do Sul, África, Oceania, Índia e Antártica). Mais tarde os dois supercontinentes também se desmancharam formando o mundo como ele é hoje: Eurásia, África, Antártica, Oceania e Américas.

O material encontrado é do grupo Enantiornithes, um grupo semelhante ao dos Confuciusornis (ajudou? não, né?). Ambos são aves extintas do Cretáceo. É impossível saber a espécie com certeza e criar uma espécie nova seria temerário, então ficaremos na dúvida com essa.

Olhem só que pequeno. A barrinha tem 5 mm. Notem também como as penas da cauda são maiores que o bicho inteiro. Olhando com calma à direita, é possível observar detalhes das penas em uma das asas, que está dobrada para cima.
Olhem só como é pequeno. A barrinha tem 5 mm. Notem também como as penas da cauda são maiores que o bicho inteiro. Olhando com calma à direita, é possível observar detalhes das penas em uma das asas, que está dobrada para cima.

As penas podem ser vistas nas fotos do artigo. São essas marquinhas em torno do corpo da ave. É possível ver até mesmo detalhes como filamentos delas e tem mais. Em algumas penas existem pequenas concentrações de grãos ao longo delas. Suspeita-se que isso sejam vestígios da pigmentação original, então seria possível estimar a colocação e alguns padrões da penas quando a ave ainda era viva.

O Prof. Ismar da UFRJ fez um pequeno vídeo de divulgação para o lançamento deste trabalho à impressa.

Outra coisa curiosa deste animal são as penas da cauda. Note que elas são anormalmente alongadas. De fato, elas eram de pouca utilidade para voo, talvez até atrapalhassem. Elas serviam mesmo era para chamar a atenção, de modo parecido com as penas do pavão que servem para ameaçar os rivais e paquerar as pavoas de plantão. Essa é uma característica já conhecida do grupo do Confuciusornis e é razoável supor que o mesmo acontecia com Eunantiornithes. Espécimes com este tipo de plumagem já foram encontrados, mas o do Brasil se ressalta pela ótima preservação que permitiu aos pesquisadores esclarecer alguns detalhes sobre a morfologia delas que causava alguma confusão com as diferentes interpretações que recebiam.

Por fim, o tamanho diminuto sugere que se trata de um animal muito jovem, porém, as penas escandalosas da cauda dizem o contrario. Em aves atuais, (falo do pavão, mais uma vez) este tipo de plumagem surge quando o animal está mais velho e na idade de se reproduzir. Mas no caso destes grupos fósseis isso parecia acontecer muito antes pois já foram relatados casos parecidos entre eles.

Referência

Ismar de Souza Carvalho, Fernando E. Novas, Federico L. Agnolín, Marcelo P. Isasi, Francisco I. Freitas, & José A. Andrade (2015). A Mesozoic bird from Gondwana preserving feathers Nature Communications : 10.1038/ncomms8141

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Guia prático de como fazer uma declaração completa do imposto de renda 2015

"EXTENVARE POPVLVS"
EXTENVARE POPVLVS

Todo começo de ano meus amigos ficam me enchendo para ajudá-los com a declaração de IR, então escrevi este post bem curtinho sobre o básico de como preparar uma declaração completa com todas as deduções mais comuns no melhor estilo se vire! faça você mesmo. Este post tem duas partes, a primeira é esta aqui mesmo. A segunda é um post no Viva o Linux discutindo detalhes do cálculo do IR com o uso do LibreOffice.

Vamos começar!

Alíquotas do IR em Roma: (MMCD - CCCLX) * XXII = CDXLVIII
Alíquotas do IR em Roma: (MMCD – CCCLX) * XXII = CDXLVIII

Tipos de Declaração

Primeiramente temos que selecionar que tipo de declaração será feita. São apenas três opções:

  • Declaração de ajuste anual: o nome pomposo apenas diz que é uma atualização da declaração do ano anterior. Ele compara os dados do ano retrasado com os do ano passado para ver se está tudo ok. É esta a que faremos.
  • Declaração Final de Espólio: espero que não seja o seu caso pois esta aqui é para quem já morreu. Ela é feita para finalizar a declaração de renda do falecido, geralmente é realizada junto com o inventário.
  • Declaração de Saída Definitiva: gostaria que este fosse o meu caso – motivo: dilma. Esta é para quem vai sair do Brasil. Com ela você fica em suspenso na receita até que volte a fazer uma Declaração de Ajuste Anual.
Note que o programa foi feito para que uma pessoa possa preparar múltiplas declarações simultâneamente. Isso facilita para contadores.
Note que o programa foi feito para que uma pessoa possa preparar múltiplas declarações simultâneamente. Isso facilita para contadores.

Do lado esquerdo do programa existe uma lista com opções. A maioria delas é sobre modos de visualização ou sobre declaração de itens mais complicados como Atividade Rural, Ganhos de Capital, Ações e etc. A maior parte da declaração está na seção Fichas de Declaração.

As outras fichas como Atividade Rural e Ganhos de Capital para para declaração outras atividades como alienação de bens (venda de carro, casa, jatinho...). Eu só conheço as fichas mais básicas que são as que uso.
As outras fichas como Atividade Rural e Ganhos de Capital para para declaração outras atividades como alienação de bens (venda de carro, casa, jatinho…). Eu só conheço as fichas mais básicas que são as que uso.

Um detalhe importante. Nas Declarações de Ajuste Anual você pode optar por dois tipos de tributação:

  • Deduções Legais: este é o modo para quem fará a declaração completa e este é o caso que abordaremos aqui. Isso só tem utilidade para quem tem deduções a fazer com saúde, previdência, alimentação, educação e etc.
  • Desconto Simplificado: é a declaração simplificada que utiliza apenas os dados de rendimentos do banco e informes do empregador.
As opções podem ser mudadas a qualquer momento então, primeiro preencha sua declaração e depois preocupe-se em escolher qual opção se adéqua a você. Neste caso aqui, veja só a diferença entre a simplificada e a completa!
As opções podem ser mudadas a qualquer momento então, primeiro preencha sua declaração e depois preocupe-se em escolher qual opção se adéqua a você. Neste caso aqui, veja só a diferença entre a simplificada e a completa!

Fichas de Declaração

A maioria das fichas tem preenchimento automático ou estão relacionadas a coisas que estão fora do nosso escopo como Espólio, Doações, Atividade Rural e etc. Aqui veremos detalhadamente as seguintes:

  • Identidade do Contribuinte: aqui você preenche seus dados pessoais.
  • Dependentes: se você tem dependentes e pretende declará-los aqui é o lugar.
  • Alimentandos: aqui é o caso de quem paga pensão aos filhos e etc.
  • Rendimentos tributáveis recebidos de pessoa jurídica: aqui entra o seu salário e todos os descontos que foram feitos nele. Lembre-se de pegar o Informe de Rendimentos na sua empresa.
  • Rendimentos Isentos e Não Tributáveis: aqui são os dinheiros que não pagam imposto de renda.
  • Rendimentos sujeitos à tributação exclusiva/definitiva: são valores que na maioria são preenchidos automaticamente de outras partes da declaração.
  • Imposto Pago/Retido: a maioria dos campos é automática. Aqui são agrupados os impostos de renda que você já mencionou ter pago antes no outros campos.
  • Pagamentos Efetuados/Doações Efetuadas: nesta seção colocaremos as deduções a serem realizadas.
  • Bens e Diretos: Descreva seus bens: todos eles!
  • Dívidas e Ônus Reais: se você tem dívidas de agiotagem bancárias, elas podem ser declaradas aqui.

Identidade do Contribuinte, Dependentes e Alimentandos

Esta seção era para ser simples, mas não é o caso. Uma das informações que ele solicita são os dados da declaração anterior. Se esta é a primeira vez que você declara, não há nada para colocar aqui, mas o programa não explica isso e fica solicitando a informação constantemente. A Ocupação Principal e Natureza da Ocupação também apresenta desafios. É pouco claro como preencher esta seção pois as profissões são bastante específicas, mas deixam margem para erro.

Sua escolha provavelmente é ajuste anual também. A retificadora é utilizada para corrigir erros em declaração já enviada.
Sua escolha provavelmente é ajuste anual também. A retificadora é utilizada para corrigir erros em declaração já enviada.

Na ficha de Dependentes é só uma questão de listar os dependentes. É desnecessário especificar o quanto gasta com cada um deles, isso será calculado de outros lugares do programa. Note que é possível declarar como dependentes tanto filhos quanto afilhados, sobrinhos ou mesmo os pais e avós. O mesmo vale para a ficha de Alimentandos; são introduzidos apenas os dados pessoais de quem você paga pensão alimentícia.

Antes que você fique se perguntando: Como declaro meus custos com dependentes? Eu lhe respondo: quando você tem dependentes, você declara o IR por eles. Então ao longo da declaração você terá várias opções para definir se o que está sendo declarado é seu ou do dependente e isso inclui suas despesas. Porém, existe um limite para as deduções (veremos logo mais) e um limite ainda menor para as deduções dos dependentes. Consequentemente, ter um dependente pode custar mais caro no IR do que parece.

Rendimentos de PJ

Aqui são listadas as rendas recebidas através de contratos de trabalho, geralmente CLT. Se você trabalha de carteira assinada é aqui que os dados do informe de rendimentos de sua empresa devem ser inseridos. Note que são inseridos os dados do rendimento bruto e as deduções de folha de pagamento (INSS e IR) são inseridas separadamente e isso inclui o 13º. Lembre-se de verificar se os dados do seu informe fornecido batem com os valores que você recebeu ao longo do ano, esse tipo de erro pode acontecer por parte da empresa e cabe ao contribuinte ficar de olho se o valor foi errado tanto para mais quanto para menos.

Lembre-se de declarar os dados dos dependentes também, note que há uma aba separada para isso logo ali em cima.
Lembre-se de declarar os dados dos dependentes também, note que há uma aba separada para isso logo ali em cima.

Rendimentos Isentos

Aqui entram os recebimentos que não são tributados pelo imposto de renda. Algumas mais interessantes são:

  • 01. Bolsas de Estudo: as bolsas do CNPQ e CAPES entram aqui junto com qualquer outra bolsa auxílio a estudante. Note que é necessário pegar o informe de rendimentos do CNPQ e da CAPES. Outras fontes como bolsas de fomento das fundações estatuais e universitárias também devem ser coletados junto a elas.
  • 04. Lucro na alienação de bens: este aqui é sobre venda de bens de pequeno valor (quanto?) ou se você trocou uma casa pela outra e esta era a seu único imóvel.
  • 08. Rendimentos da poupança: a poupança em si entra em outro lugar (Bens e Direitos). Aqui é só a soma dos rendimentos listados nos informes dos bancos.
  • 15. Bolsas de médicos e Pronatec: este aqui é semelhante ao 01, mas é para bolsas Pronatec e de médicos em residência.
  • 23. Restituição: as restituições do IR recebidas no ano anterior são incluídas aqui.

Tributação definitiva e Rendimentos Recebidos Acumuladamente

Tributações definitivas são valores de onde o imposto imposto de renda é cobrado sem possibilidade de restituição. Geralmente são casos onde o imposto é retido na fonte. Felizmente a maior parte desta seção é automática.

  • 01. 13º Salário: O(s) décimo(s) já foram colocados nos Rendimentos de Pessoa Jurídica, então este campo já vem pronto.
  • 06. Rendimentos de aplicações financeiras: este campo é como o dos rendimentos da poupança, mas aqui são descritos os rendimentos com fundos de investimento e outras aplicações que são tributadas.
Esses campos em cinza geralmente são automáticos e preenchidos com dados de outro lugar. Outro são preenchidos com a ajuda do botão dourado logo à esquerda. Geralmente ele abre uma tabela onde você pode adicionar detalhes sobre o campo para alimentá-lo.
Esses campos em cinza geralmente são automáticos e preenchidos com dados de outro lugar. Outro são preenchidos com a ajuda do botão dourado logo à esquerda. Geralmente ele abre uma tabela onde você pode adicionar detalhes sobre o campo para alimentá-lo.

Imposto Pago/Retido

Mais um grupo de campos automáticos. Aqui é calculado o quanto de imposto de renda você já pagou no ano anterior. Algumas áreas importantes aqui:

  • 01. Imposto complementar: para quem pagou imposto complementar no ano passado via DARF.
  • 02. Imposto pago no exterior pelo titular e dependentes: para quem paga IR em outro país. Basta mencionar aqui o valor nos informes de rendimento obtidos no exterior.

Pagamentos Efetuados

Esta é a parte mais importante para quem deseja fazer deduções. É nela que descrevemos os nossos gastos com Educação, Instrução, Saúde e Previdência Privada tanto nossa quanto de nossos dependentes.

A maioria das deduções, fora IRRF e INSS são realizadas nesta seção. É a partir daqui que uma declaração completa se difere de uma simplificada pra valer.
A maioria das deduções, fora IRRF e INSS são realizadas nesta seção. É a partir daqui que uma declaração completa se difere de uma simplificada pra valer.

Para fazer as deduções teremos que comprovar depois os gastos junto a receita, por isso tenha em mãos as notas fiscais e informes de pagamento. Geralmente médicos e escolas dão notas fiscais, mas planos de saúde distribuem informes de pagamento semelhante ao informe de rendimento bancário. Veja qual o caso do seu plano de saúde; o da UNIMED RJ, por exemplo, pode ser obtido no site.

As deduções que podem ser feitas são basicamente as que mencionei acima. Coloquei entre parênteses os números das fichas correspondentes no programa:

Existem muitas outras opções aqui que de nada adiantam para as deduções como pagamento de aluguel e advogado. Por isso as ignorei. Fique de olho nas normas das deduções para que você possa aproveitá-las ao máximo.

Bens e Direitos

Dependendo de o quão enrolado você é esta parte pode ser a mais fácil ou a mais complicada. Em Bens e Direitos são descritos os bens da pessoa. E nada deve ser deixado de lado: poupanças, contas, contas no exterior, fundos, certificados, carros, casas, fazendas, jatinhos… são 99 opções para escolher, fique à vontade. O perguntão da receita é bem tranquilo e explica os casos mais cabeludos.

Os bens, tanto seus quanto de seus dependentes ficam listados aqui. Tome cuidado de declarar tudo, se um item existia no ano anterior e não existe mais, ele será considerado "vendido" e a receita perguntará por quanto e para quem em algum momento.
Os bens, tanto seus quanto de seus dependentes ficam listados aqui. Tome cuidado de declarar tudo, se um item existia no ano anterior e não existe mais, ele será considerado “vendido” e a receita perguntará por quanto e para quem em algum momento.

Todas as declarações de bens têm uma estrutura bem simples onde você diz o valor do bem no início do ano e no fim do ano enquanto dá uma breve descrição do que ele é e onde está (se está fora do Brasil). Note que os bens são declarados sempre com o valor inicial, então se você comprou um apartamento em Copacabana por R$ 400.000,00 e agora ele vale R$ 1.500.000,00, o mesmo deve ser declarado com o valor original. A valorização somente será declarada quando o bem for vendido/alienado.

Dinheiro que você emprestou ou pegou emprestado com alguém, por exemplo, é declarado como “51 – Crédito decorrente de empréstimo”. Note que a pessoa também deve declarar que emprestou/recebeu ou então a receita verá como um dinheiro que brotou do chão e te perguntará depois de onde veio…

Pendências

Acabamos por hora. Clique na ficha Verificar Pendencias para ver campos em branco e erros pelo caminho. Note que ele sempre reclama das seguintes coisas:

  • Falta da declaração anterior: se esta é sua primeira declaração isso fica assim mesmo.
  • Bens com valor zero: alguns bens são declarados com valor inicial zero, mas o programa entende isso como um erro de digitação. Veja se é o caso ou não. Se estiver tudo bem, pode ignorar esta parte.
Eis a fórmula para cálculo do imposto de renda #sqn. Na verdade essa é a fórmula para ver se um Pokemon será capturado ou não.
Eis a fórmula para cálculo do imposto de renda #sqn. Na verdade essa é a fórmula para ver se um Pokemon será capturado ou não.

Agora vamos para Resumo da Declaração. Nesta parte estão os dados da declaração, mas agora agrupados e organizados. Em Rendimentos Tributáveis e Deduções podemos ver os totais de cada categoria e em Cálculo do Imposto podemos verificar como o imposto é calculado. É uma formula relativamente simples onde se subtraem as deduções do rendimento e multiplica-se pelo valor do imposto.

Na tabela da direta temos os dados da declaração, agora combinados. A base de cálculo é basicamente Renda - Deduções. A partir dela os outros dados como a faixa de imposto e a dedução de incentivo são calculadas. Depois o valor do imposto já pago (o "IRRF") - à direita - e restituível (não o "Tributável Definitivo") são considerados para decidir se você ganha uma restituição ou paga mais imposto.Nesta seção também podemos indicar a conta bancária para receber a restituição.
Na tabela da direta temos os dados da declaração, agora combinados. A base de cálculo é basicamente Renda – Deduções. A partir dela os outros dados como a faixa de imposto e a dedução de incentivo são calculadas. Depois o valor do imposto já pago (o “IRRF”) – à direita – e restituível (não o “Tributável Definitivo”) são considerados para decidir se você ganha uma restituição ou paga mais imposto.Nesta seção também podemos indicar a conta bancária para receber a restituição.

Ferramentas e Transmissão

Você já deve ter percebido que o programa salva sozinho os dados da declaração, por isso não existe um botão para salvar em lugar nenhum. Existe apenas uma pequena mensagem no canto inferior esquerdo indicando quando foi feita a ultima modificação. Cada dado inserido é salvo automaticamente.

Em Ferramentas temos a opção de Gravar Cópia. Ela tem três utilidades:

  1. Transportar a declaração (pronta ou não) para outro computador. Isso pode ser útil se você começou a declaração em uma unidade e teve problemas com ela para concluir.
  2. Guardar a declaração para depois. Isso é bom se você precisar fazer uma Retificadora depois ou quer utilizar a declaração deste ano no ano que vem para poupar tempo.
  3. Transmitir com o Receita.net separadamente.

O arquivo exportado pode ser guardado para depois. Note que isso pode ser feito a qualquer tempo, mesmo para declarações já prontas. Então é possível, exportar a declaração com os comprovantes e depois recriá-los conforme o necessário. Para importar uma declaração pronta que foi exportada de outro programa ou computador, use a opção Restaurar.

Uma declaração só é considerada pronta quando você utiliza a opção “Gravar Declaração para Entrega à RFB” em Declaração. Com isso ela é salva e é fechada. É possível voltar a fazer modificações depois sem problemas, mas ela tem que ser gravada para entrega antes da transmissão.

Para transmitir a declaração use a opção “Transmitir via internet”. Você precisa do Receita.net que é instalado separadamente. Caso não funcione no programa Declaração, você pode transmitir a declaração manualmente com o receita.net.

Conclusão

Como vimos a declaração é mais simples do que parece. O perguntão da Receita explica bastante coisa embora seja relativamente seco. Existem muitos sites com guias para casos especiais que podem ajudar como o Portal Exame.

Na próxima parte deste post (se eu tiver paciência) falarei sobre como calcular o imposto de renda com as deduções que descrevi aqui bem como prever os valores para o ano que vem e assim se preparar ao longo do ano para levar suas deduções ao máximo.

Biologia + Ciências Naturais

Como funciona por dentro: microtomografia

Caso eu tenha deixado de mencionar anteriormente, minha dissertação era essencialmente a descrição da anatomia pós craniana de um Crocodilomorpha do Cretáceo do Brasil. Infelizmente eram ossos pequenos e frágeis inseridos em um arenito (uma pedra!) duro pacas e a remoção deles resultaria em perdas de material. Isso, por acaso, foi tentado por outros alunos que conseguiram limpar em parte o material, mas perderam tanta coisa no processo que tivemos que abordar os fósseis com outra estratégia. Felizmente nós temos um laboratório com equipamento para microtomografias. Neste post dou uma revisão bem geral sobre a técnica.

Histórico

A aquisição de dados microtomográficos foi desenvolvida nos anos 70, para uso médico e posteriormente sua utilização em pesquisa nas áreas de geologia e engenharia foi impulsionada nos anos 80. As imagens microtomográficas são obtidas através de diferenças de atenuação dos raios X sobre materiais do objeto imageado. Estas atenuações são dependentes tanto do material analisado quanto da intensidade e qualidade da radiação aplicada. O processo todo tem um jeito de radiografia, mas é bem mais que isso. Enquanto na radiografia vemos apenas uma imagem 2D onde ficaram registrados os materiais de diferentes densidades, na microtomografia existem mais possibilidades de análise.

Aplicações diversas
Exemplo de tomografia: a técnica que permite a visualização de estruturas internas de um objeto foi desenvolvida para fins de diagnóstico médico, mas mostrou-se util em outras áreas da pesquisa. Na esquerda temos um bloco de rocha com diferentes constituintes separados por cores. Na direita, temos uma tomografia co crânio de um mamífero onde a região do cérebro foi diferenciada.

Em resumo: a técnica consiste do mapeamento de diferenças de densidade dentro do material analisado usando radiação, mas que permite a visualização de sua estrutura interna em detalhes. A máxima resolução obtida com scanners médicos é de 600 µm x 600 µm x 1 mm (três dimensões, notem), mas equipamentos desenvolvidos para materiais mais específicos podem obter resoluções superiores.

tomografia medica
Tomografia médica: A tomografia médica é bem específica, depende de menos energia (até porque mais seria cancerígeno/radioterápico) que as demais, mas é a mais usada e explorada. No tomógrafo médico podemos ver os elementos básicos do equipamento a fonte (que é móvel), a plataforma (que é fixa, pois é onde fica o paciente) e o detector (que fica oposto à fonte, por isso o formato circular do equipamento).

Fontes e Filtros

O síncrotron é um fonte artificial e policromática de raios-x. Este tipo de fonte sempre possui múltiplos tipos de energia, isso gera distorções (artefatos) na imagem que tornam sua interpretação difícil devido às diversas atenuações de raios de baixa energia. Fontes monocromáticas, como elementos radioativos usados em equipamentos de raio-x médicos, são as melhores, porém, são um problema em termos de manutenção e descarte. Fontes artificiais podem ser adaptadas usando difração (com a ajuda de um filtro que desvia os raios de energia inferior), mas isso reduz a intensidade dos raios significativamente e só pode ser feito em fontes relativamente potentes.

Scanners para uso em aquisições de alta resolução geralmente utilizam fontes de síncrotron de alta energia, com raios paralelos ou quase-paralelos e monocromáticos; estes atingem resoluções de 5 um. Porém, a aquisição de alta resolução restringe o tamanho da amostra significativamente. Este tipo de aquisição é necessária para a visualização de amostras que envolvam materiais de atenuações baixas como diferenças entre gases e líquidos.

O caso do Césio 32 que aconteceu no Brasil nos anos 80 (parece tão distante agora…) é um ótimo exemplo de risco oferecido por fontes naturais de radiação. Um síncrotron pode simplesmente ser desligado e torna-se inofensivo. Eu acho…

Para a realização da aquisição, diversas configurações precisam ser adequadas ao objetivo da aquisição. As configurações de aquisição envolvem ajustes da fonte (intensidade) e detector (atenuação e filtragem). Dentre as configurações de aquisição relevantes podemos citar corrente, voltagem e filtragem. Corrente e voltagem determinam em parte a intensidade da emissão. Os filtros são utilizados para promover a difração dos raios policromáticos reduzindo sua intensidade e podem ter impacto significativo nos resultados da aquisição.

255 tons de cinza

A aquisição em si resulta em algo parecido com a sísmica em geologia. As imagens da aquisição, as quais são simples bitmaps, devem ser processadas antes de serem úteis em alguma coisa. O processo de reconstrução utiliza filtragem das imagens digitais através de modelos matemáticos. Durante a reconstrução são removidos diversos artefatos gerados durante a aquisição. Os artefatos são um elemento inerente do método e, embora possam ser reduzidos em condições ótimas de aquisição, podem ser gerados por fatores como desalinhamento entre a fonte e o detector, erros no detector, objetos anormalmente densos (amostra heterogênea, o que por acaso, é a regra) e etc.

O resultado da reconstrução são séries de imagens que documentam o objeto tomografado tanto interna quanto externamente. Estas imagens são sempre em uma escala de cinza, onde as diferentes densidades do material original foram convertidas em uma escala de 255 tons de cinza onde os tons mais claros (em direção ao 255) identificam densidade maiores e os tons mais escuros (em direção ao 0) identificam densidades mais baixas ou atenuação zero (quando o raio passa direto pelo material, praticamente sem refração). A visualização pode ser feita diretamente nas fatias, um procedimento típico da tomografia médica, ou utilizadas para a criação de um modelo tridimensional que permita livre manipulação.

brain tomograph
Uma tomografia médica: Creio que agora começou a fazer sentido o minha lorota sobre reconstrução e etc. A série de imagens, conhecidas como fatias, mostram as diferentes densidades dentro do material na forma de uma escala de cinza.

A microtomografia pode ser utilizada em materiais que apresentem diferença de densidade suficientemente grande entre seus constituintes ou na composição atômica. Umas das aplicações é no mapeamento de porosidade de materiais dada à extrema diferença de densidade entre os poros e o material circundante; é o método utilizado para caracterização de rocha reservatório em geologia sedimentar ;). É possível, por exemplo, diferenciar as fases sólidas, líquidas e gasosas em uma amostra para avaliar a porosidade efetiva. A aquisição também pode ser utilizada para visualização de volumes tridimensionais em alta resolução. Um exemplo disto é a avaliação de rugosidade/irregularidade de superfícies de amostras de rochas ou visualização 3D da morfologia externa de micro e macrofósseis em resoluções semelhantes ou superiores às do microscópio eletrônico. Uma das principais vantagens da microtomografia é ser um método que preserva o material estudado o que permitiria sua aplicação tanto em materiais onde métodos destrutivos seria inviáveis (como fósseis e meteoritos) e no monitoramento de processos ativos como relações deformações em materiais utilizados em engenharia.

Comparação densidade candidodon
Meu orientador morre se ver isso: dados não publicados ;) Aqui temos uma microtomografia de crânio, como no primeiro exemplo. Podemos ver a escala de cores distinguindo o fóssil do sedimento. Na imagem de cima, a escala de cinza foi convertida em cores para melhor visualização.

Outras coisas legais

Outra forma de produzir um efeito parecido com o da tomografia é transformar um objeto físico em laminas e fotografá-las em alta resolução. Este processo é destrutivo pois exige que o material seja laminado para sua realização. As laminas, por sua vez, são preservadas o que permite novas aquisições ou observação direta das mesmas. O resultado final é semelhante a uma tomografia, porém, com imagens coloridas que permitem uma melhor segmentação e identificação de estruturas através das lâminas. Isso pode ser feito com rocha, ou qualquer outra coisa que seja solidificável e um exemplo é o Visible Human Project que está fazendo exatamente isto com corpos humanos.

Este vídeo é meio antigo, mas mostra muito bem como a técnica funciona na prática. Eles usam resina para tornar o corpo inteiro um bloco sólido que vai sendo fotografado e polido (desbastado) a até literalmente desaparecer.

O Auriga é um equipamento da Zeiss (depois me lembrem de cobrar pelo jabá) que aplica a nanotomografia, mas este é um método totalmente destrutivo de análise de amostras. Diferentemente da tomografia as imagens são obtidas com um laser que é aplicado diretamente às amostras. O resultado deste processo é o desbastamento da amostra a sua consequente destruição. Porém, o Auriga oferece acesso a escala nanométrica, visualização tridimensional da amostra e mapeamento de sua composição química.

Tem uns vídeos da Zeiss explicando o método, mas este é o melhor para mostrar o resultado da aquisição.

Referências

Mees, F.; Swnnen, R.; Van Geet, M.; Jacobs (eds), P. 2003. Applications of X-ray Computed Tomography in the Geosciences. Geological Society, Londo, Special Publications, 215.

Biologia + Ciências Naturais

Artigo que fala das complicações de ter um Projeto de Pesquisa no Brasil e dá outras providências

Boa tarde pessoal!
Agora que terminei o mestrado (terminei, mas não entreguei) estou mais tranquilo para voltar a escrever sobre outras coisas além de ossos cacarecados…

Atualmente trabalho com gestão de projetos em um laboratório da UFRJ. Boa parte de nosso trabalho depende intensamente da Fundação Coppetec, uma fundação de apoio criada pela Coppe/UFRJ para auxiliar a universidade em sua gestão. Sem o auxílio da Fundação a administração de recursos, tanto financeiros quanto humanos, de grandes projetos seria inviável.

As fundações surgiram para desburocratizar a agilizar a captação de recursos e a relação da universidade com o setor privado. Muita gente acha que as fundações são um tipo de banco para que os professores recebam dinheiro por fora (muitos professores, diga-se). A fundação, como entidade de direito privado, é uma organização sem fins lucrativos que existe para administrar recursos para atender demandas da universidade. Recursos incluem dinheiro de projetos, mas também bolsas, contratação de pessoal, importação e compra de materiais entre outros. O principal trunfo delas é que por serem privadas, estariam livres para contratar sem a necessidade de concursos ou comprar sem a complicação das licitações. A ideia funcionou relativamente bem e hoje as universidades podem desenvolver centros de inovação e parcerias com o setor privado além de livrar os professores de ficar calculando INSS e IR de seus contratados.

Quem trabalha no setor público – e principalmente na educação – sabe que além de não terem dinheiro para nada, as universidades federais são repartições públicas. Logo, fazem uso das Leis de Administração Pública que são “um conjunto de leis não codificadas que estabelecem princípios da administração pública” ou em uma tradução literal: um monte de regras esplhadas que engessam a administração da universidade. Um exemplo disto é a Lei 8.666, a qual rege as compras e contratações de serviços no setor público.

A versão atual da Lei 8.666 descreve regras para que um “agente da administração” (um membro do governo, como a universidade) faça contratações de serviços de engenharia (obras), serviços gerais (manutenção diversa) e compras (de tinta para carimbo de R$ 2,00 a um servidor de rede de R$ 100.000,00). A lei separa contratos de compra de contratos de engenharia pelo preço, não pelo tipo de operação, o que gera todo tipo de distorção. Além disto, privilegia o preço mais baixo e dificulta a escolha do material o que resulta em contratação de serviços e aquisições de baixa qualidade.

Serviços de baixa qualidade...
Serviços de baixa qualidade…

Isso teoricamente, serviria para evitar fraudes como a contratação da empreiteira do sobrinho de alguém. Na prática torna a compras simples um pesadelo burocrático e em nada evita o desvio de dinheiro público. Um caso real aconteceu comigo: na UFMA tinha-mos um pequeno projeto para trabalhar com genética molecular. A maior parte do recurso do projeto era para compra de reagentes para PCR como bases nitrogenadas, buffer e enzimas. Esses materiais são todos  perecíveis, então esperávamos comprar pequenos lotes de um fornecedor de boa qualidade que tínhamos usado anteriormente. A Fundação Sousândrade – que apoia a UFMA, seria o equivalente da Fundação José Bonifácio (FUBJ) da UFRJ – tinha que comprar isso via lei 8.666 e fizeram um edital, nos termos da lei, que resultou na compra de tudo de uma vez do fornecedor que tinha o preço mais baixo. O material comprado era de baixa qualidade o que prejudicou nosso projeto e tivemos que doar parte do material para que não se perdesse.

"Nepotismo funciona com as artes, não com a engenharia." Sábias palavras.
“Nepotismo funciona com as artes, não com a engenharia.” Sábias palavras.

Algumas iniciativas já existiam para flexibilizar a gestão pública, principalmente em termos de pesquisa. A redução de taxas de importação pelo CNPQ, a qual beneficia projetos por ele apoiados (através dos editais) ou usados pelas próprias universidades e suas fundações é uma amostra disto. O projeto de lei do Romário que beneficiaria a importação de equipamentos também está em andamento, mas já foi votado umas 1000 vezes pelas contas do Facebook e até agora nada.

Recentemente, a excelentíssima gerenta, lançou um novo decreto que cria regras específicas para as Fundações de Apoio no que tange a compras e contratações. A intenção era criar uma regulamentação específica para as fundações que as tornassem menos expostas às complicações da lei 8.666, porém, o decreto 8.241 ainda é bem fraco no que sem propõe.

"Bota mais cem no juiz!", Dilma vendo a seleção levar um Deutschwurst no derrière.
“Bota mais cem no juiz!”, Dilma vendo a seleção levar um Deutschwurst no derrière.

Anteriormente, as fundações podiam atuar tanto dentro quanto fora da lei 8.666 dependendo do tipo interpretação que o cliente (patrocinador do projeto) tivesse de como a fundação deve gerir seus recursos. Isso criava uma insegurança jurídica pois a qualquer momento algum bem intencionado (geralmente do TCU) poderia “entender” que a Fundação deveria agir segundo as leis da administração pública e ferrar com tudo. O benefício do decreto 8.241 é criar algumas regras específicas para as fundações e colocá-las em uma posição mais segura. Agora é possível fazer grandes aquisições e obras sem a necessidade de editais complexos como os da Lei 8.666; entretanto, compras de pequeno valor agora devem ser feitas com contrato:

Art. 39. Considera-se de pequeno vulto, para os fins do disposto no § 1 do art. 4 -D da Lei n8.958, de 1994, o valor de R$ 800,00 (oitocentos reais).

No melhor estilo Estado de Bem Estar Social, a mão pesada do Estado agora restringiu as compras de pequeno valor a um valor ridículo e de quebra introduziu no mundo acadêmico o conceito de cesta básica. Se por um lado o decreto facilitou a vida das fundações agora ele complicou ainda mais a vida do pesquisa. Foi um tiro no pé, mas valeu a tentativa. Enquanto isso na Copa, o TCU fecha os olhos…

Biologia + Ciências Naturais

Cursos Online: Coursera.org

Dia desses decidi ver o que tem de bom nesses cursos online por aí. O escolhido foi o Coursera, um dos mais manjados. Eu já tinha me aventurado pelo OpenCourseWare, mas não era bem o que eu buscava. Eu adorei o Coursera e sua estrutura. Os cursos são todos muito parecidos em termos de recursos, todos oferecidos através de uma prática estrutura de formulários do próprio site. Também há um fórum em cada curso para os alunos se encontrarem e discutirem. A oferta de cursos ainda é muito específica, mas bem interessante. Logo de cara estava um sobre programação em Python, pela Universidade Rice.

curso coursera bioinformatica
Os cursos ficam listados, com a ultima ocorrência e a previsão de novas aulas. O site informa dos cursos que ficarão disponíveis com antecedência, outros ficam permanentemente abertos. Eu adoraria fazer este de Bioinformática, mas é isso ou a dissertação :(

O curso sobre Python foi uma das melhores experiências que já tive com educação a distância. Ele era bem puxado, os conceitos avançavam rapidamente, mas os professores além de bem humorados – fãs de Big Bang Theory – eram excelentes em suas explicações. O curso também me apresentou alguns conceitos interessantíssimos como a programação interativa (o foco do curso eram joginhos em Python) e interfaces gráficas.

aula coursera python
As vídeo aulas podem ser baixas conforme ficam disponíveis. Algumas oferecem legendas em arquivos separados e múltiplos formatos de download estão disponíveis

Várias outras coisas me impressionaram neste curso. Uma delas é o tal codeSkulptor, uma plataforma de programação online desenvolvida pelos próprios instrutures para as aulas, mas tão completa que serve para pequenos projetos. Se eu tivesse mais tempo livre faria uma engenharia reversa do codeSkulptor, mas me parece um senhor JavaScript que translitera para a sintaxe do Python. O codeSkultor inclui bibliotecas básicas do Python – como math, time, random – e recursos próprios como a interface simplegui e o sistema de plotagem de mapas simpleplot o qual tive pouca oportunidade de experimentar.

A segunda coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de profissionais fazendo o curso, gente que já está acostumada a programar em outras linguagens – principalmente C e Java – apanhando feio para o projeto do Pong tanto quanto os que estavam vendo algoritmos pela primeira vez. Me senti menos burro, admito, mas é impressionante a quantidade de pessoas tentando aprender umal linguagem nova. Se eu não tivesse uma experiencia prévia com Perl, JavaScript e PHP eu estaria lá até agora.

asteroids coursera python
Quando vi isso na primeira aula achei que seria complicado demais fazer um Asteroids em Python. Depois que terminei percebi o quanto é fácil fazer coisas que parecem extremamente complexas.

O curso acabou dia 13 de Dezembro, os certificados de conclusão do Coursera já foram liberados a muito tempo, mas o fórum continua ativo e pós-curso vai bem. O conteúdo permanece online até que a próxima temporada se inicie. Eu recomendo. Já me inscrevi eu uma lista de cursos novos, como evolução, educação, paleontologia, e pré-cálculo. Estes cursos novos serão muito uteis na minha vida profissional e acadêmica pois muito encaixam-se como uma luva ao que tenho em mente para o doutorado e outros para o MBA.